ARTES
MOSTRAS ATUAIS
PASSAGENS SUSPENSAS, 2025
As pinturas de Bianca Kovach capturam aquilo que normalmente escapa: o instante entre um lugar e outro, o silêncio que habita os espaços de transição. São geometrias que não apenas constroem cenários, mas suspendem o tempo.
Em suas telas, o cotidiano urbano se transforma em paisagem afetiva. Escadas, esquinas, pisos, fachadas — fragmentos reconhecíveis que deixam de ser meros registros da cidade e passam a revelar atmosferas de memória e delicadeza. Há sempre a sensação de travessia: como se estivéssemos diante de portas que não se abrem totalmente, ruas que não chegam a um destino final, passagens que permanecem suspensas.
Essas imagens propõem um deslocamento íntimo. Entre linhas rígidas e cores vibrantes, emerge uma vulnerabilidade sutil: o espaço arquitetônico se converte em espaço interno, e a geometria se torna linguagem da emoção.
“Passagens Suspensas” convida o olhar a permanecer naquilo que dura pouco, a habitar o intervalo, a escutar o ritmo invisível que vibra dentro das formas.
AQUELA QUE "NÃO" SE ENCAIXA, 2023
Há vaso e facas, e coesões inesperadas. As janelas dos prédios na superfície das cerâmicas: criando negativo nas estruturas, penetrando dentro das casas, criando moradas dentro de nossas íris. Bianca habita em nós o desejo incontrolável de manter os legos vivos, de equilibrar os caos internos.
Ao mesmo tempo, confessa, entre monotipias, acrílicas em telas e cerâmicas, a fricção própria dos corpos que se (des)encaixam. O fluxo intenso que inicia como uma tentativa de caber, mas que amadurece para uma brincadeira entre as desestruturas, entre as moléculas do ar, sempre em movimento.
Não preciso mais caber em canto nenhum: já sou o abraço dos pensamentos voláteis; o desencontro gostoso das emoções. A obra de Bianca é puro desejo: há tanta invenção circulando que se supera a vontade de se encaixar em qualquer lugar. Formas que transbordam, convexas, fluidas, orgânicas, duras e moles, camaleônicas.
A exposição segue um fluxo que brinca com um espelhar lúdico das formas, em uma curadoria onde o percurso dialoga entre as paredes que se entreolham e cochicham segredos deliciosos entre si.
Na entrada, encontramos a primeira peça de uma série de três colagens em cerâmica que se distribuem ao longo da exposição. Pelo lado esquerdo, temos uma sequência de quatro ambientes, costuradas por três vigas, cada uma delas abrigando uma monotipia vermelha. Interessante pensar o espaço que a monotipia toma na obra de Bianca: essa gravura que, no processo de se firmar enquanto imagem no papel, destrói a própria matriz. Monotipias que se fazem como o quebrar das crisálidas, dando adeus aos corpos antigos e boas-vindas às belas mariposas.
O percurso continua, no lado esquerdo, por uma experimentação que reúne, principalmente, composições em acrílico, a maioria com o nome "Sem título". Sinto que, para Kovach a intitulação não atravessa necessariamente o espaço da palavra, mas se constrói no embaralhamento simbólico e sensório entre as materialidades, o toque e a visão. É um título que se dá na relação do espectador com a obra, e que mais é uma sensação do que uma palavra.
No lado direito da exposição, conseguimos ver uma sequência de monotipias ainda mais imponente, que brinca com texturas, formas, ausências, e, sobretudo, encaixes e desencaixes. As monotipias foram as últimas invenções que chegam no repertório da obra de Bianca Kovach, uma parte significativa já em 2023. Mostram uma maturidade lúdica, uma composição que, ao mesmo tempo, compartilha o afiado processo de criação de uma artista que já experimentou muito aliado a um desejo e consciência de que há muito a se experimentar.
E é nessa generosidade de seu processo multilinguístico e multifacetado que Kovach nos presenteia: de um íntimo abstrato, de conexões concretas, de brincadeiras entre linguagens, vasos e facas, fragmentos de tudo, e, principalmente, fragmentos de si.
Aquela que não se encaixa, Exposição individual por Bianca Kovach, com texto e curadoria de Levi Banida
JÁ MOSTRADAS
Projeto IRIS/Luz, 2007
"As fotos afastam-se da simples documentação e das características tradicionais de nitidez e descrição clara do assunto. A nitidez técnica foi sacrificada em favor das potencialidades pictóricas buscando efeitos típicos da pintu-ra. As cores foram escolhidas de tal modo que representem a legitimação de estados de espiri-tos e emoções, nos oferecendo espaços para diversas leituras e abordagens, desde o sensorial imediato até o espiritual"
"PEQUENOS e GRANDES FORMATOS", 2003
Bianca dividiu suas obras em dois grupos:
"objetos de luz" e "fotografias", essas últimas apresentadas em duas séries ("cidades" e "luzes"). "As fotos afastam-se da simples documentação e das características tradicionais de nitidez e descrição clara do assunto. A nitidez técnica foi sacrificada em favor das potencialidades pictóricas buscando efeitos típicos da pintura. As cores foram escolhidas de tal modo que representem a legitimação de estados de espiritos e emoções, nos oferecendo espaços para diversas leituras e abordagens, desde o sensorial imediato até o espiritual".
Os visitantes vão conhecer outro estudo da artista plástica: "objetos de luz", obtidos a partir de recortes feitos através de papel. Ela explica que seu suporte é a busca da luz. "Tudo é iluminado. Trato a luz como objeto", diz, acrescentando que a característica se aplica também ao seu trabalho como fotografia











































